sábado, abril 25, 2009

Revelação

Enfim um pé no mundo.
Como diz a música ... "passa tempo, passa-tempo passa hora ..." e foi-se um ano sem visitar terras minhas.
São tantas coisas que me valeriam um outro blog contá-las. Mas, a despeito disso, digo que redescobri a essência da vida. Veja o cúmulo do pedantismo ... eu descobri duas vezes o que o mundo inteiro tenta uma vez na vida. Não esqueça que sou raposa e raposa é sempre pedante.
Pois, voltando ao assunto, descobri que mulher e família são incompatíveis para o homem comum. Isso porque todas as qualidades que nos são exigidas para conquistar uma moçoila são completamente inúteis para educar um criança. Vamos a fundo no argumento:
Conquista exige arrojo, educação constância
Conquista exige auto-suficiência, educação exige sensibilidade
Conquista exige coragem, educação exige ternura
Conquista exige vivacidade, educação exige inteligência
Conquista exige tempo livre, educação consome tempo como nada no mundo
Conquista exige impetuosidade, educação exige atenção máxima ...

e por aí vai
claro que poderão argumentar que as coisas não são excludentes, mas um homem normal (um que não é príncipe e raposa) demora-se muito para se despir de uma atitude e adentrar em outra. Trocando em miúdos vamos dizer que após a conquista e os nove meses de apreensão você pode pegar tudo o que usou antes e jogar no lixo, tornando-se um outro você. Ou faz isso de bom grado e poupa alguma energia ou a vida fa-lo-á de forma categórica.
Esqueça, pois, o falo a, comece agora a usar o falo b ...

domingo, dezembro 16, 2007

Roda Viva

Hoje me disseram que amanhã já é Natal ...
O engraçado é que, em minha percepção, anteontem tinham me dito a mesma coisa
E ontem já tinha sido Natal.

Pára o mundo que eu quero descer!

quarta-feira, outubro 31, 2007

Eu sou de esquerda

Em algum lugar desse imenso país.
Uma criança prostrada no colo magro de sua mãe, antes do último suspiro pergunta com os olhinhos já fechados:
- Mamãe, no céu tem pão?

E eu morro um pouquinho a cada dia nesse país.
Em qualquer canto, em qualquer lugar.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Assim caminha a humanidade ...

Socialmente falando o trabalho é o centro do mundo. Quem tem se faz gente e quem não tem parece não ter o direito de ser gente. O mundo, entretanto, historicamente encontra formas de chacoalhar o galho da macacada de tempos em tempos. Empregos somem, trabalhos desaparecem. Criam-se vagas, fala-se em "reengenharia" para mascarar o termo demissão em massa, fala-se "colaborador" para fugir o máximo possível das obrigações trabalhistas e paga-se o mínimo para que o vivente apenas sobreviva. O capitalismo é assim, clássico.
Quando no RS começou-se a falar em fazer cartões de ônibus magnéticos, como os cartões de telefones vários políticos se manifestaram contra defendendo um grupo de trabalhadores que imediatamente perderiam seus cargos, os cobradores. As empresas declararam que eles não seriam afetados, fizeram compromissos públicos e o diabo à quatro.
Pois em Novo Hamburgo já circulam ônibus sem cobrador e quem recolhe os pagamentos é o motorista. Os cobradores perdem seus empregos e os motoristas passam a ser sobrecarregados com outras funções, como se cuidar da condução de um veículo de passageiros em nossas mal sinalizadas ruas ja não fosse demais. Sobrecarregados eles não têm como se negar a aceitar o fardo já que se um vai para a rua tem dez querendo trabalhar.
É o capital desdizendo o que disse e desfazendo o que prometeu tudo pelo bom e velho lucro ...
O que menos importa aqui são as pessoas, seja você, o cobrador ou o motorista ...
Alguém precisa gritar!

domingo, julho 29, 2007

"No caminho do bem ..."

Aprendi que ninguém é totalemente bom nem totalmente mal. Claro que tem gente que exagera, mas de maneira geral o velho símbolo Yin-Yang diz tudo. Eu que sempre procurei caminhar por uma senda hoje me vejo às portas da outra. Sinto-me responsável por um brutal ato que deve acontecer em poucos dias e minha responsabilidade embora muito pequena é primordial. Ainda mais se contabilizar que tenho exemplos bem próximos meu ato tornar-se-á ainda mais terrível. Acredito entretanto que me furtar não iria resolver o problema e que a amizade, nesse caso, me é mais importante.
Tomara que os deuses te iluminem meu amigo e que tu nunca venhas a te arrepender da tua decisão ...

sexta-feira, julho 27, 2007

Herança

Enquanto a Globo se vangloreia das conquistas do esporte. A oposição tenta colocar o presidente em cheque e as empresas aéreas continuam intocadas tentando manter Congonhas como está. Nós brasileiros nos sentimos órfãos de justiça e começamos a nos sentir impotentes contra a onda de interesses que atinge a tudo e a todos. Me preocupa pois é esse país que vou deixar para o meu filho. O país da Jade, do Giba, da Maurren, das irmãs Hypólito, e de tantos outros ou o país do Renan, do Clodovil, das sanguessugas, dos ACM (a maldição da família ...) e tantos (dolorosamente tantos) outros.
Ouvimos e não pensamos durante o Pan ...
"Mas se ergues da justiça a clava forte,
verás que um filho teu não foge à luta."

quinta-feira, julho 26, 2007

De certa forma ...

Faz muito tempo. Na realidade minha percepção é de que estamos em outra vida. Escrevi pela última vez em dezembro de 2006. Retorno agora. Diferente é pouco. Outro. Tão outro que pensei em terminar esse espaço. Não resisti. Sou muito apegado àquilo que me faz bem. Estas linhas, que para uns foram chatas, para outros emocionantes, me fizeram sobreviver. Num tempo árido, num tempo de amarguras onde mais se via sombras do que se tinha esperança. Nesse deserto urbano pós-moderno, que mais despedaça do que une, eu caminhava por entre letras e bytes. Era um oásis de sonhos que me carregava de um ponto bom por entre lugares inóspito. Como que anestesiado eu caminhava. Sem rumo. Sem norte. Sem eira nem beira.
De certa forma eu sobrevivi pelos caminhos torpes que ligam os sonhos às letras. De certa forma ...
De volta à ativa ...

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Aponta-dor

Desde que inventaram a expressão corporal o dedo se tornou obsoleto.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Pó de Giz

Sou um professor.
Cansado.
Esgotado.
Ganhando pouco.
Sem muita atenção.
Trabalhando muito.
Sem valorização.
Buscando um espaço.
Engulindo sapo.
Vivendo menos.
Sentindo mais.
Se preocupando com tudo.
Pensando em nada.

E peço perdão pelos pleonasmos.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

que Lua!

Impossível fingir. No Rio Grande do Sul é impossível fingir que o verão chegou. A gente sua sentado que nem maratonista na são silvestre. Fica sempre melado, não importa quando tomou banho. (Descobri que o suor tem a mesma composição quimica da urina, um nojo) O tempo de validade do desodorante é de vinte a trinta minutos na sombra, depois é que nem a torcida do flamengo em dia de jogo no Maracanã. Levanta-se não com aquela brisa gostosa da manhã, mas já com um calor de rachar e com o travesseiro suado. (ou mijado segundo a minha informação, um nojo). Procura-se colocar roupas claras que na real só te deixam mais chateado ainda, pois elas ficam transparentes e os biquinhos do peito passam a ser de domínio público, bem como a cabeleira de baixo do braço. Nada estético. A gente sonha com os Alpes suiços e Barilhoche, mas só pode ir para Gramado e Imbé. Deprimente.
Vai-se pegar um emprego temporário e tem centenas de vagas para Papai Noel. Imagina o calor daquela roupa e a pentelhação daquelas crianças. Nada feito.
Sempre se procura um amigo com piscina em casa, mas não se sabe o motivo essas pessoas tornam-se mais seletivas nesse período. Quem tem ar condicionado levanta as mãos para o céu e pede para não pegar pneumonia, pois dentro da sala ou do carro é 15 graus e fora é 40.
Mas o que realmente me incomoda são as tais das cigarras que por volta das dez da manhã até o meio dia cantam desatinadamente. Isso é muito chato pois recordo-me que sou formiga!

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Panela em que muitos mexem

A impressão que tenho é que vivemos em um tempo onde a verdade não interessa. O importante é a versão. Isso funciona também para a imagem. Se você é ou não bonito, gosta ou não de ser, se é loiro (a) ou moreno (a) não importa. Não importa se gosta desse tipo de vida ou dos valores nela implícitos tampouco. Vale também para as relações, falemos e depois não damos o devido lastro. Manipulações, mentiras, falcatruas e outras coisas são moeda correnta na nossa vida. Aliás parece que inteligência vem sempre acompanhada de tentativa de manipulação. E não falo das mega corporações de manipulação que convencionamos, erradamente ao meu ver, chamar de mídia. Falo das relações pessoais que estabelecemos.
Existem pessoas que se esforçam por parecerem perfeitas mesmo não sendo e mesmo que isso fique evidente. Hoje você deve ser perfeito até ao reverso, ou seja, em errar pareça humilde para assumir e arrependido para mudar. Note que eu falei pareça e não seja. Os valores cristãos que agora entram na moda são transformados e purpurina que recobre uma fantasia. Impressionante como isso ocorre o tempo todo ao meu redor. Sem distinção de pessoa, classe, etc.
E o errado sou eu que sou o mais verdadeiro possível.
Se brinco, bebo, danço e falo bobagem sou imaturo e deveria mudar, "afinal vou ser pai".
Se demoro para tomar uma decisão pensando melhor e articulando várias possibilidades sou covarde e não sei tomar decisões.
Se digo que sou um dos melhores naquilo em que faço e critico aqueles que deveriam ser "colegas" sou antiético e cafajeste com as pessoas minhas "colegas".
Mas ninguém procura ver que sou verdadeiro. Ajo conforme minha consciência no certo e no errado e a assumo, sempre.
Não vou ser modesto aqui, isso me rende problemas, mas também me rende maravilhas.
No mundo estamos em falta disso.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Seis por meia dúzia

Certo que daqui a exatos um mês eu vou chegar aos trinta. Aliás, certo não, quase certo. Sempre tem o "sobrenatural de almeida". Mas como a esperança é a última que morre, espero chegar lá. Trintão e com corpinho de 18! Cabeça de 15 ...
Tenho me perguntado isso por muito tempo: amadureci?
E acho que sim e não.
Explico: sou imaturo na grande parte do tempo que se apresenta a mim. Assim, acho que conservo o bom humor e a inocência que tornam a vida um lugar menos inóspito. Procuro, nos momentos de maturidade, usar a máxima de que "tu te tornas eternamente resposável por aquilo que cativas".
O problema está em quando é um momento e quando é o outro. Vou usando o método ensaio e erro.
Semana passada uma velhinha me abordou na rua, segurou o meu braço bem firme e começou a revirar os olhinhos. Não deu outra, olhei para ela e disse "A senhora é muito sexy mas hoje não comprei o meu viagra!" e comecei a rir. A velhinha apertava mais o meu braço e colocou a língua para fora. Nesse momento eu retruquei: "Assim estou ficando excitado" e voltei a gargalhar.
A velhinha caiu no chão. Juntou gente. Estava tendo um ataque cardíaco.
Errei os momentos.
Paciência. A gente não pode acertar todas.
Ainda bem que não sou médico ...

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Me deu vontade

Sei que isto está um deserto. Estéril e chato. E sei que a culpa é toda minha, mas a vida "é uma caixinha de surpresas" e isso não vai me deixar desanimado.
Descobri que a velocidade é relativa. Em realidade os físicos tinham já descoberto isso, mas agora eu provei. Provar não do sentido comprovar mas do sentido experimentar. Estamos novamente no natal. A um ano minha vida era uma bagunça e o blog um escape. Hoje, minha vida é um escape e o blog uma bagunça. Está tudo bom, tendendo ao maravilhoso. E tudo isso em apenas um ano. Eu não vivo, eu brinco de montanha russa. Assim como estou em baixo, uma piscadela e subo. O problema era eu me acostumar com isso e perceber que trajetórias não mudam essências.
Um grande amigo me disse que antes eu via problemas e agora eu busco soluções. Nisso ele tem razão, toda a razão. E são coisas diametralmente opostas.
Nesse natal não visualize os problemas mas busque as soluções. Entenda que o atrito não é bom para ninguém, mas que limites são um sinal de amor. Veja que o que abunda em ti pode fazer falta num amigo próximo, vivemos em sociedade. Entenda essa frase. Saiba que assim como ganhamos, perdemos na mesma proporção. E que este pode ser o último natal de qualquer um de nós ...
Mas, que morre de véspera é peru!

terça-feira, outubro 10, 2006

É, verdade ...

É nessa doida e insensata coisa que chamamos de vida que aquilo que chamamos de felicidade chega e se esvai. São momentos fugazes que se eternizam na vontade de serem eternos. Momentos que podem também ser vida. A tua vida. A minha vida. A vontade da eternidades é fugaz como a própria imagem do que se tem por eterno. Um sorriso de criança tem mais força que mil bombas atômicas, mas somente para aqueles que acreditam que os momentos se sucedem sem a menor racionalidade e que aquilo que entendemos por vida também ... Precisar o infinito é sempre algo intangível para a alma mas presente ao coração. Sorrir, ainda que não sejas mais criança, é saber-se centelha divina. Acreditando ou não é preciso viver. Divindade, criança, eternidade, amor, infinito tudo isso é bomba se, e somente se, entederes que esvair-se faz parte também de ti. Um eterno oceano que vem e vai e que nossa lógica apenas prediz que uma concha um dia aparecerá. Parece lógico mas é óbvio. A lógica é óbvia demais para ser levada a sério. E se a vida é lógica, bom meu amigo, está na hora de você nao levá-la a sério. Rir-se do nada e importar-se com uma borboleta pode ser efeito da loucura ou da teoria do caos. Aos físicos a segunda e ao vencedor as batatas! Lógica é aquilo que a gente acha que encaixa sem ver direito se encaixou.
Lembra daquela criança?
E daquele sorriso?
Durante esse post ela cresceu, afinal o tempo é relativo!
E a bomba?
Energia, um dia voltamos, se é que já fomos.
Afinal o fim.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Saída pela direita!

Quem falou que o mundo dá voltas usou, no mínimo um eufemismo. No meu caso ele está me deixando completamente zonzo!
Quem falou que estamos na era da velocidade estava de brincadeira comigo. Lembra daquele ditado: "Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come!"? Si non é vero é benne trovato!
Rita Lee que dizia numa música sua o fantástico verso: "Quero voltar para dentro da barriga da minha mãe!"
E eu repito umas trinta vezes por dia o slogan do Popeye "Macacos me mordam!" ou o do Robin "Santa confusão Batman, como vamos sair dessa?" Mas eu não tenho Batman nenhum. No fim disso tudo espero que terminemos como em "E o vento levou ..."
Mas ao fundo lembro-me do velho e saudoso Leão da Montanha ...

quarta-feira, setembro 27, 2006

Das coisas da vida

Eu tenho achado doce o gosto da desilusão. Pode parecer estranho mas é estritamente verídico. Não falo de desilusões amorosas, nem qualquer outra de tipo pueril, mas desilusão no profundo de seu significado. Renego toda e qualquer filosofia piegas de auto-ajuda que procura reafirmar o velho e batido ditado de que tudo tem seu lado bom. Não tem e pronto! Acostumemo-nos. Desilusão é desilusão, cest finit. Não é porta para nada melhor. Não é momento para introspecção. Não é espaço para aprendizado. Não é nem mesmo digno de esquecimento. Desilusão é natural. Como natural também é a tristeza, a solidão, a dor de dente, a fome, a remela e a própria morte. Simples ou complexas, as coisas são naturais. Simplesmente naturais. Como bosta de vaca. Se mexer fede, se deixar endurece e não incomoda.
Taí, conclusão in extremis: desilusão é bosta de vaca. Pensado nesse exato momento. Lembre-se apenas de que a vaca não é você, tampouco, in casu, a merda.
Assim, a constatação mais clara é: "E daí que a vaca cagou?". Não sendo em mim, e desilusão nunca tem como sujeito o desiludido, dane-se o cheiro. Acho que, por isso, a sábia língua portuguesa colocou o verbo desiludir como intransitivo. Segunda conclusão da noite: bosta de vaca é intransitivo. Tão genial quanto a primeira, diga-se de passagem.
Apenas agora me dei conta de que fica estranho fechar as pontas: Bosta de vaca tem gosto doce.
Paciência, lembre-se: é natural.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Rua abaixo

A menina - É por aqui a Praça XV?
O Príncipe - Não ...

Eram umas sete e meia da noite. De uma noite que começava a esfriar rapidamente em Porto Alegre, como as de inverno. Também começava a chover e as luzes do dia se perdiam em meio as nuvens e ao cair da noite. A menina ia na direção completamente contrária da que queria. A praça XV fica no centro e é conhecido ponto de sem-teto, sem-carinho, sem-cuidado, sem-nada ...
Ela, a menina, com frio, molhada e visivelmente maltratada não demonstrou qualquer sinal de agressividade, mas ainda assim era evitada pelos transeuntes. A pergunta tinha um tom melancólico que misturava um certo sentimento de falta de convicção no recebimento de uma resposta e desimportância. Como se pergunta-se ao vento onde se esconde o sol.

O Príncipe - Estás, aliás, bem longe ...
A Menina - É?
O Príncipe - Sim deves seguir a próxima avenida grande e caminhar bastante até o centro.

No mínimo, quarenta e cinco minutos de caminhada. Insólita. Solitária. Penosa. Cruel. Imoral.
Frio e chuva estavam mais do que previstos como forma de açoitar aquela alma. E parecia que ninguém se preocupava com isso. Ela mesma resignava-se a falar com sombras e a ouvir uma cidade de costas.

A Raposa - Vou te levar até a parada de ônibus e tu pegas um até o centro, de lá é mais fácil ir até a praça XV. Assim foges da chuva e do frio.

Dois reais, era o que eu tinha no bolso.
A Raposa, mesmo ela, agredida pela cena procurou acolher uma menina que parecia não enteder a reação minha. Seus olhos demonstravam o espanto que é receber uma mão estendida. Mas a Raposa não pensou no que fazia. A Menina relutava em ir até a parada de ônibus e a Raposa então compreendeu ...

A Raposa - Aqui se pega o ônibus. Você pode usar esse dinheiro para pegar o ônibus e fugir da chuva e do frio ou ir a pé por esta grande avenida até o centro.

Escolha desumana. Escolha nojenta. Nojeira que começa em cada sala de burocrata. Em cada mesa de político. Em cada assinatura carregada de poder e dinheiro e imersa em desconsideração. O entulho explode no peito dos honestos com a força de mil bombas atômicas. O frio e a chuva são seus eternos companheiros. O mísero pão que poderia ela comprar não. País asqueroso.
Desceu ela rua abaixo alguns passos. Escolha feita. Mas antes ela parou e perguntou.

A Menina - Quer de volta os dois reais? - Estendendo a mão com o dinheiro.

Não pude responder. Apenas acenei com a cabeça que não. Honestidade, ombriedade, caráter. Tudo o que falta para tanta gente. E eu então sentei no cordão da calçada e chorei. Chorei pelo por mim. Chorei pelo Brazil. Chorei pelo mundo, acredite, chorei por você. Senti vergonha de ser brasileiro. Senti vergonha de fazer parte de toda uma sociedade capitalista ocidental contemporânea. Vendo a menina se distanciar e a chuva aumentar, talvez eu quisesse me punir pelo que faço a ela. Suporto esse sistema degradante e apenas choro.

Você tem mais escolhas em outubro e em novembro para fazer. Escolhas que podem mudar as escolhas dela. E de tantas outras pessoas.
Por favor ...

quarta-feira, setembro 06, 2006

Alpes gaúchos

Porto Alegre é demais. Todo ano invento novas configurações para as roupas que tenho. Eu tenho a configuração "Sol escaldante", a "Calor abafado", a "Muita chuva e pouco sol", a "Muita chuva e muita chuva", tem também a "Friozinho fresco de carioca", a "Frio gaudério" e tinha a mais forte de todas a conhecida "Frio de renguar cusco". Essa era composta por siroulas, calça de brim (aqui no sul não se usa "jeans", isso é coisa de marica) duas meias, camiseta Hering com mangas longas, "suéter" (é chique e não bixa!) de lã fininho e aí vinha um blusão de lá grossa ou moleton grosso. Para sair na rua, era ainda necessário um bom casaco e cachecol. Essa configuração todo mundo tem de reserva. Cuida para não lavar as peças no inverno, caso um minuano de arrebalde apareça e a temperatura desmaie. Nem liga muito para cores e combinações afinal, quando o queixo bate o olho não consegue ver nada a não ser um bom chocolate quente. Depois, a grande maioria das peças fica por baixo mesmo. O famoso poncho fica guardado num local do guarda-roupa onde você precisa digitar uma senha. Ao fazer isso um alarme soa pela casa e coisinhas mais, digamos, mais sensíveis são forçadas a se recolherem seja a hora que for. Animais de estimação, crianças com menos de cinco anos e idosos com mais de sessenta e cinco e também mulheres grávidas vão para os seus quartos onde desenvolvem técnicas de guerrilha contra o frio. Essas técnicas incluem panela com alcool queimando, bolsas de água quente, cobertores elétricos, muito café quente, panos em baixo das portas e nas janelas, gatos e cachorros para os pés etc. Coisas bem conhecidas dos pampas.
Nesses últimos quinze dias, entretanto, Porto Alegre me surpreendeu. Tive que criar a configuração "Super inverno plus II com abas". É composta de siroulas, suéter, meias, calças de brim exatamente como na outra, mas agora o "improvement" fica por conta de você colocar o blusão de lã e o moleton grosso juntos, um em cima do outro. Para sair, além da jaqueta já mencionada, se sair antes das sete da manhã ou depois das sete e meia da noite leva também um cobertor. Não há muita diferença de horário então aconselho a também dormir com essa roupa, cuidando apenas para trocar as roupas íntimas. A situação é tão perigosa que tenho levado também o travasseiro caso a frente da casa congele e eu precise dormir em algum conhecido. Nesses dias a solidariedade empresta colchão mas cobertores são de uso pessoal e intransferível.
Vou terminando o post que soou a sirene de alerta para quedas bruscas de temperatura. Com isso agora pegamos direto uma pneumonia que pode avançar para tuberculose. Aqui erradicamos a gripe, ela morreu de frio.

quinta-feira, agosto 31, 2006

O velho Marx

Era o início dos anos 90 e meu pai tinha passado pelo vestibular ingressando no curso de economia. Tardiamente era verdade, já tinha seus 35 anos, mas muito suado. A faculdade de economia, de início, fez parte da minha vida também. Não porque eu tivesse na época interesse especial pela matéria, mas por eu partilhar um pouco da animação de meu pai. Era contato com um monte de autores renomados, nomes importantes que tinham pensado coisas importantes. Era livro que não acabava mais.
Eu, ainda no segundo grau, por muitas vezes achava aquilo tudo muito entediante. Smith? Hegel? Ricardo? Não, obrigado, já almocei. Os meses se passavam e meu pai insistia, cada dia com um escritor nome, a "bola da vez". Discussões monológicas sobre seus aprendizados, algo em mim sempre ficava. Se era o interesse dele eu não sei, mas com certeza não era do meu. Ficava ali escutando mas não ouvindo. Lembrava apenas de ficar atento às pausas de "Entendeu, filho?" às quais eu respondia "Claro, mas isso não se contrapõe ao outro autor?". Isso era a certeza para ela de que eu prestara à atenção nos dois autores e a garantia de um sorriso aberto e mais duas ou três horas de discussão.
Muitas vezes fazemos isso. Fingimos que a vida não nos machuca. Fingimos que as palavras não nos tocam ou com o desentendimento cínico e pueril ("Ãhh?) ou com uma contraposição fundada na forma e não no conteúdo ("Não vou nem discutir isso."). Assim, o barco vai correndo, a vida vai passando e os estilhaços machucam menos, além de não fazer a felicidade de quem se propõe a ferir. Muitas vezes lutar para desarmar uma bomba é, além de cansativo, muito arriscado. Se não há perigo, afastamo-nos e deixemos detonar. Meu pai falava do que lia e do que aprendia no maior interesse do mundo: passar ao filho. Outras pessoas podem se sentir ameaçadas e assim buscar briga. Lembre de deixar detonar.
Quando eu entrei na faculdade, por ironia do destino todos esses autores voltaram. Me formei em história e todos eles fizeram parte da minha vida. Os ecos do meu pai ainda estavam vivos e, de alguma forma, o destino jogou ao nosso favor. Meu e dele.
De todos os autores que li o velho Karl Marx ainda me traz recordações. Mais-valia, luta de classes, expropriações são ferramentas de aula. Quem sabe por um futuro melhor. Quem sabe ...
Dizia ele, com sapiência incrível, que preço não é igual a valor. E existe o valor de troca e o valor de uso.
Estive pensando nisso. Ciúme, alto valor de uso e baixíssimo valor de troca.
E o barco vai passando ...

quarta-feira, agosto 30, 2006

Cha-la-la

Tenho tentado voltar à antiga forma. Certo que escrever também é questão de prática e tenho percebido que perdi um pouco (senão muito) da minha. Mas também é um exercício de disciplina e esforço. Outra vez li num livro ou revista que os gênios são aqueles que complementam o que recebem com o que fazem. Assim vou começar a usar a grande regra do mundo: repetir.
Perceberam como o mundo todo funciona desta maneira?

Marketing é a repetição exaustiva de afirmações que acabam se tornando verdade.
Jornalismo é a repetição contextualizada de opiniões que acabam se repetindo nos discursos afora.
Comércio é a repetição negociada de ofertas e produtos interessantes ou não que fazem repetir estruturas sociais excludentes.
Amor é a repetição verdadeira de carinhos e pensamentos que acabam por sensibilizar o ser amado.
Trabalho é a repetição de rotinas físicas ou intelectuais de modo a automatizá-las até a inconsciência
Política é a repetição cínica de ideais deslavadamente intangíveis ou inverídicos para manutenção de posições de poder.
Religião é a repetição dogmática de pensamentos insondáveis para diminuição da culpa ou expiação da dor.
Amizade é a repetição de atos e ações para criar vínculos com quem se quer criar respeito e confiança.
Saudade é a repetição dolorosa das sensações experimentadas outrora sabidamente não retornáveis.

Algumas eu repito outras eu refuto mas no fundo reputo à repetição a principal regra do mundo.
Vou escrevendo ... repetindo como um eco solitário num canion escaldante. Mais velocidade e menos distinção.